
A movimentação econômica de frutas do Rio Grande do Norte deve crescer até 15% na safra 2025/2026, segundo representantes da cadeia produtiva. O setor, que emprega formalmente milhares de trabalhadores e abastece mercados na Europa e nas Américas, segue com uma demanda aquecida por melão, melancia, mamão, manga e outras culturas produzidas no semiárido potiguar. Em Mossoró, a 32ª Feira Internacional da Fruticultura Tropical Irrigada (Expofruit) reuniu mais de 40 mil visitantes entre 20 e 22 de agosto e deve consolidar uma movimentação de R$ 90 milhões em negócios realizados durante e depois do evento.
Com recorde de expositores e rodada internacional de negócios, a edição 2025 reforçou o papel do Estado como exportador nacional de frutas. Enquanto a Estação das Artes concentrou a exposição aberta ao público com mais de 300 estandes, a programação científica ocorreu na Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa). A Expofruit contou com lideranças do setor e autoridades públicas, que traçaram perspectivas de produção e infraestrutura logística para sustentar o crescimento na nova safra.
Para Fábio Queiroga, presidente do Comitê Executivo de Fruticultura do Rio Grande do Norte (Coex), a feira sintetiza o bom momento do setor. “[A Expofruit é] celebração de um caso de sucesso. O estado do Rio Grande do Norte se tornou o maior exportador de frutas do Brasil, não só melão e melancia, que são os carros-chefe, mas também de manga, coco, banana, abacaxi, pitaia e limão. São vários produtos que estão na porta de exportação da fruta”, explica.
Na visão de Queiroga, o efeito direto da feira se prolonga por toda a safra, que vai tradicionalmente de agosto ao início do ano seguinte, com contratações, compras de insumos e expansão de mercados. O ambiente tarifário externo segue sendo monitorado pelo setor, em especial diante da tarifa de 50% sobre as importações brasileiras imposta pelos Estados Unidos. No entanto, a avaliação é que a diversificação de destinos e o reforço logístico local mantêm o RN competitivo.
Zeca Melo, superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/RN), ressalta a abrangência do evento. “Essa é a maior feira de negócio na área de fruticultura tropical do país. Aqui você tem toda a cadeia. Você tem os produtores, os exportadores, toda a cadeia de insumos, fertilizantes, as soluções de logística, as iniciativas de startups que dão consultoria na área. Então ela é completa”, avalia.
Na prática, a presença conjunta de âncoras, além de pequenos e médios produtores forma um ambiente de prospecção e aprendizado, com difusão de boas práticas, certificações e soluções de logística, além de linhas de financiamento e pesquisa aplicada. Para o Sebrae, esse encontro acelera a competitividade e a formalização, com reflexos em produtividade, qualidade e alcance de novos mercados.
Nildo Dias, vice-reitor da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa), enfatiza a ponte entre ciência e campo. “Os produtores se sentem ainda um pouco isolados da universidade e eu acho que a Expofruit traz essa coisa da gente cada vez mais aproximar e dialogar os saberes, que é o nosso saber mais científico com o saber técnico do produtor. Isso é extremamente importante”, pontua.
A programação acadêmica da Expofruit abordou temas como irrigação no semiárido, uso racional da água com sensores, drones e inteligência artificial, além de pesquisas em pós-colheita e polinização, impulsionando a adoção de inovação voltada à sustentabilidade e às exigências de qualidade dos mercados internacionais.
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, vinculou as perspectivas da safra a melhorias de infraestrutura. “É crescer cada vez mais as nossas exportações, principalmente no setor de frutas, porque hoje, infelizmente, parte está indo pelo Porto de Pecém; outra parte, inclusive, por Suape. A gente celebra, nesse exato momento, a melhoria substancial que tá sendo feita na logística e na infraestrutura do Porto de Natal”, avalia.
Durante a Expofruit, a governadora reafirmou o compromisso do Governo Federal com a duplicação da BR-304, prevista para começar no segundo semestre, em articulação com o Ministério dos Transportes. Do ponto de vista logístico, as obras viárias e a modernização do Porto de Natal são vistas como estratégicas para reduzir custos e prazos, melhorar a conservação das frutas e aumentar a confiabilidade das entregas.
Guilherme Saldanha, secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca do RN, sublinha o impacto social e a dimensão econômica da atividade. “A fruticultura movimenta fácil no Rio Grande do Norte R$ 4,5 bilhões. Tem a história de que o PIB do agro no Rio Grande do Norte é 14%. O IBGE fala isso e é verdade, porque ele pega dentro da fazenda e diz: ‘o PIB é esse daqui’, mas existe um movimento em cadeia. As caminhonetes que rodam hoje dentro do Estado do Rio Grande do Norte majoritariamente são do agro. Quem compra os tratores são fazendas. Tem muita coisa. Se você pegar o impacto positivo, no contexto do PIB, isso passa de 30% fácil”, afirma.
Com a oferta hídrica ampliada através da chegada das águas do Rio São Francisco e projeções de melhoria no escoamento, o RN mira ampliar volumes para a Europa e diversificar destinos. A avaliação do setor é de que programas de qualificação e abertura comercial ajudam a reduzir a dependência de janelas específicas e a sustentar o avanço da fruticultura na safra 2025/2026.
A força da Agrícola Famosa
Um dos destaques da Expofruit foi a visita à fazenda da Agrícola Famosa, a maior exportadora de melão do Brasil. Apenas na unidade central, localizada entre os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, são mais de dois mil hectares de área plantada, abastecendo mercados nacionais e internacionais.
Para Richard Muller, diretor operacional da Agrícola Famosa, a região reúne condições favoráveis de produção e escoamento. “A nossa região é agrícola. A Agrícola Famosa é uma das empresas pioneiras na produção de melão e uma empresa que acho que tem uma certa relevância no cenário agrícola. A gente emprega mais de 6.000 pessoas, então existe uma grande importância para a economia do Rio Grande do Norte e do Brasil”, avalia.

foto: David Emanuel
Ao comentar a nova safra de melão, ele projeta uma tendência positiva. “Nós até antecipamos a safra esse ano, começamos duas semanas antes e a gente está vendo uma safra muito positiva. O mercado europeu está demandando muita fruta. A gente já começou há duas semanas com a exportação, já começamos a trabalhar com os nossos barcos no Porto de Natal”, conta.
A estratégia de escoar via Porto de Natal reduz o tempo de trânsito e permite que a fruta chegue ao destino dentro do padrão de qualidade. A previsão é que de cerca de 300 mil toneladas sejam exportadas nesta temporada somente pela Agrícola Famosa, destacando o terminal potiguar como um dos polos fruteiros nacionais.
Pequenos negócios, internacionalização e ciência
Além das grandes exportadoras, a Expofruit também evidenciou o papel de micros e pequenos produtores na cadeia da fruticultura. Com apoio do Sebrae, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e de instituições parceiras, esses empreendedores tiveram espaço para expor seus produtos e participar de rodadas internacionais de negócios.
Segundo João Hélio, diretor técnico do Sebrae/RN, a feira é a principal vitrine do setor no Nordeste. “São muitos contratos que se iniciam aqui, além do impacto na economia como um todo: na rede hoteleira, no turismo, no comércio e no serviço. O que tem de mais importante da Expofruit, ao meu ver, ano após ano, é que ela se consolida”, avalia.
Durante a Expofruit, o Sebrae realizou o lançamento do Hub de Inovação de Agropecuária do RN, um espaço colaborativo para apoiar startups, empreendedores e produtores. Franco Marinho, gestor de fruticultura do Sebrae/RN, destacou a ação. “A gente está aqui trazendo, aproximando o pequeno produtor desse processo que é extremamente importante para o desenvolvimento do estado do Rio Grande do Norte”, afirma.
No que se refere às oportunidades de internacionalização, Anderson Dib, especialista de agronegócio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), resume o alcance da rodada. “A gente teve bastante adesão de empresas em todo o território nacional nessas ações. É uma repercussão muito boa em nível de satisfação, tanto das empresas brasileiras, quanto dos compradores dos 13 países estrangeiros que estão aqui conosco”, relata. Entre os representantes estrangeiros, estiveram Chile, Rússia e Índia.
Jorge de Souza, gerente técnico da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), foi um dos palestrantes na programação da Expofruit e ressaltou o papel de investimento em melhorias no setor. “Tecnologia e inovação são fatores críticos ao sucesso. A tecnologia te leva à eficiência; conseguir o melhor resultado possível com o menor custo possível”, explica.
Nos seminários realizados na Ufersa, a orientação central foi diversificar mercados e acelerar a adoção de tecnologia, da análise de solo ao uso de sensores, drones e inteligência artificial. A meta é reduzir a concentração em poucos destinos e transformar o bom momento em trajetória sustentada de crescimento para a fruticultura potiguar.
TRIBUNA DO NORTE